O poder da mordida: Por que a textura virou um ativo estratégico na indústria de alimentos?

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Você já se pegou parado em um vídeo de gente comendo só para ouvir aquele croc perfeito? Ou assistindo de novo o mesmo take da colher afundando num creme só para sentir, pela tela, aquela maciez quase terapêutica?

Pois é. Acontece comigo também — e com milhões de pessoas.

Esse fenômeno tem nome: #ASMR (se ficou curioso, busque essa # que você verá).

O termo foi criado em 2010 por Jennifer Allen, uma profissional da área de saúde pública que, curiosa com as sensações de relaxamento e prazer que certos sons provocavam (inclusive mastigação, toques e texturas), decidiu nomear o que ela e milhares de pessoas sentiam.

O resto virou história — e milhões de vídeos.

Mas afinal, por que isso importa para quem trabalha com alimentos?

Porque a textura deixou de ser figurante. Virou protagonista.

E não só no TikTok: a textura é crucial na prateleira, na fábrica, na formulação e no P&L das categorias que mais crescem no mundo.

A textura como escolha, não apenas como preferência

Hoje, textura não é mais “gostoso ou não gostoso”.

Ela se tornou um driver de compra.

Segundo o IFIC, 48% das pessoas escolhem snacks motivadas pela textura crocante. Isso quer dizer que quase metade das decisões de compra acontecem antes mesmo do sabor entrar em cena.

A SNAC International reforça: 60% dos consumidores preferem snacks crocantes. Ou seja, crocância não é tendência. É mainstream. É o novo “mínimo esperado”.

Estamos vivendo a era da snackificação: comer virou ato imediato, rápido, impulsivo. A textura virou o atalho sensorial que entrega recompensa instantânea. O que o consumidor quer ouvir (literalmente) é: croc, snap, crunch.

Quando a crocância vira engenharia sensorial

E aqui entra a parte que eu mais amo neste tema: crocância é ciência.

Ela nasce da combinação entre:

  • Sistemas carboidrato–proteína;
  • Perfil de açúcares;
  • Controle de umidade;
  • Temperatura e tempo de forneamento;
  • Densidade da matriz;
  • As queridinhas reações de Maillard, e muito mais

Tudo isso cria microestruturas que vão determinar se a mordida será limpa, sonora e firme — ou se vai virar aquele “meio murcho” que mata a experiência.

Quando encarada como engenharia sensorial, textura deixa de ser acidente e vira projeto: estabilidade, resistência mecânica, integridade no transporte, fidelidade ao “primeiro crunch” mesmo no fim da validade.

Essa engenharia faz diferença em biscoitos, cereais matinais, extrusados, granolas, panificação seca… e, principalmente, na preferência sensorial.

Múltiplas texturas: O novo luxo sensorial

Não é só crocância que importa. Hoje, o consumidor brasileiro quer experiências texturais combinadas. De acordo com Estudo da Ingredion:

• 65% preferem produtos com múltiplas texturas.
• 89% recomendam um alimento com base na textura.

Ou seja: crocante + cremoso, firme + macio. Essa é a indulgência moderna, que reúne conforto, prazer e talvez até um pouco de terapia sensorial.

Nesse cenário, claro que cresce a necessidade de ingredientes que melhorem textura sem perder naturalidade.

Cryspis de frutas, cremes com base de ingredientes naturais, extrato de malte que ajudam tecnologicamente em biscoitos, por exemplo.

No fim do dia, é a textura que conta a história

Textura faz o produto acontecer.

Ela cria som, forma, sensação e memória.

E quando essas quatro coisas se encontram, o consumidor volta. Recompra, Recomenda. Paga mais.

Para a indústria, isso significa: textura é estratégia, diferenciação e valor.

E, olhando de perto, ela sempre esteve lá — só estava esperando o momento de brilhar.

E agora, definitivamente, brilhou.

Sobre a autora
Carol Godoy é Gerente de Marketing B2B na Liotécnica. Nutricionista, Técnica em Alimentos e com MBA em Marketing, atua há mais de 20 anos unindo saúde, comunicação e inovação na indústria de alimentos

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