No nosso setor de alimentos, a terceirização costuma entrar em cena quando a marca não tem planta própria ou quando a indústria quer tirar uma inovação do papel, mas não dispõe de uma linha específica para isso. Também aparece quando a fábrica opera no limite e é preciso produzir mais, mesmo que já esteja sem desligar a esteira. Tudo verdade, mas a conversa fica mais interessante quando o empreendedor ou responsável pela marca enxerga a terceirização como alavanca estratégica, não como “remendo”.
Em bom português: terceirizar é decidir crescer com cabeça fria, tempo curto e margem preservada.
Vale começar desfazendo um equívoco comum: terceirização não é sinônimo de marca própria. As soluções “plug & play”, com fórmulas prontas e catálogos, têm seu lugar — trazem velocidade, previsibilidade e podem ser perfeitas para lançamentos em janelas de tempo apertadas. Mas o universo vai muito além.
Dá para terceirizar a expertise: manter a visão de P&D dentro de casa e “alugar o cérebro”, a planta e o sistema de qualidade de uma grande indústria para desenvolver, validar e escalar com segurança.
Dá para terceirizar o meio do processo: pré-mixes que padronizam performance; condimentos, e bases que mantêm consistência necessária nas etapas industriais, como a secagem por spray dryer, por exemplo, pensando em solucionar uma dor, que a forma em pó pode trazer, mais estabilidade e melhor shelf life, logística etc. Não é “ou isso, ou aquilo”. Muitas vezes, é “isso e aquilo”, conforme o objetivo de negócio e o apetite por investimento.
Vamos aos números? Amo dados! E eles nos ajudam a explicar por que essa
agenda está quente.
– As marcas próprias seguem acelerando na América Latina: em 2024 cresceram 14,2% em valor e já respondem por cerca de 9% do gasto total dos shoppers na região — um termômetro de que há espaço para soluções rápidas, e um plug & play bem executado como falamos. Do rótulo à operação industrial que as sustenta. FONTE: NIQ+1
-Ao mesmo tempo, o mercado global de food contract manufacturing movimentou algo na casa de US$ 158 a 189 bilhões em 2024, com projeções robustas para a próxima década — sinal de que cada vez mais empresas preferem acelerar com parceiros a imobilizar capital em equipamentos e times que podem ficar ociosos fora do pico. FONTE: Precedence ResearchMarket Research Future
– A tendência acompanha: o mercado de pré-mixes, o de vitaminas e minerais, por exemplo, foi estimado em ~US$ 6,7 bilhões em 2024, com CAGR ~6% até 2030;
E há um capítulo especial quando o assunto são suplementos. A RDC 243/2018 consolidou no Brasil os requisitos de composição, qualidade, segurança e rotulagem para suplementos alimentares. Na prática, rótulo e promessas precisam se sustentar até o fim do shelf life, e é aí que entram estudos de estabilidade bem planejados (acelerados e em tempo real) — com condições que reflitam clima e cadeia logística de destino. Em 2024 e 2025, a Anvisa publicou versões atualizadas do Guia 16 (determinação de prazos de validade), tornando as orientações mais claras e alinhadas às melhores práticas internacionais. Para o empreendedor, isso tem sido uma dor de cabeça e alto custo, e se a equipe interna não tem infraestrutura para conduzir esses estudos, faz todo sentido terceirizar não só a produção, mas também o pacote técnico (P&D + produção +estabilidade) com quem domina a metodologia.
Na escolha do parceiro, o preço segue sendo importante, é claro! ninguém vive de poesia, mas ele não compra confiabilidade. O que protege a sua marca é padrão e previsibilidade: processos sólidos, rastreabilidade ponta a ponta, cultura de auditoria e capacidade tecnológica que caiba no seu hoje e no seu plano de amanhã. Um bom termômetro é observar como o parceiro trata a inovação: se ele apenas executa “o que vier” ou se pensa junto, propõe melhorias e, principalmente, tem autonomia para dizer “não” quando algo compromete segurança ou qualidade. Outro filtro que separa boas de más escolhas de parceiros, são os clientes que ele já atende. Uma prova cabal da sua eficiência, comprometimento e qualidade.
E como o responsável pela marca pode operacionalizar isso sem drama? Comece pelo “por quê”, já diria Simon Sinek (risos). É velocidade, escala, tecnologia, entrada em novo mercado? A partir daí, defina o que terceirizar: produto final (rápido, menos customização), desenvolvimento de produto (quando falta musculatura de P&D), ou um trecho do processo que vai turbinar rendimento e consistência, como um pré-mix chave, etc.
Faça um piloto enxuto, com protocolo de estabilidade que responda às perguntas certas, e escale quando os dados confirmarem a viabilidade. No contrato, seja específico com SLA de qualidade, confidencialidade, regras de mudança de insumo e critérios de liberação. Acordos claros, via contrato, evitam mal-entendidos e protegem o que realmente importa: a experiência do consumidor.
Se parece muito trabalho, é porque é mesmo — do parceiro. Terceirizar bem é dividir responsabilidade com quem tem método e infraestrutura. É contratar tempo ganho, risco reduzido e acesso a competências que levariam anos para formar internamente. E, convenhamos, é melhor ajustar a receita com o chef que já conhece o fogão do que comprar um restaurante inteiro para assar um lote que pode não passar da “primeira fornada” . No fim do dia, o objetivo do empreendedor é sempre o mesmo: entregar um produto excelente, no prazo e
com margem, e sem tanta dor de estômago. E quando você olhar para trás, a história não será “terceirizamos porque faltou algo”, e sim “crescemos porque escolhemos somar”.
Abrindo o bastidor: na Liotécnica, operamos com padrões de qualidade auditados por multinacionais e aprovados 100% das vezes — e temos clientes que terceirizam conosco há mais de 20 anos. Isso diz muito sobre o que a terceirização pode (e deve) ser: parceria de longo prazo, com confiança, melhoria contínua e evolução conjunta. Ou seja, terceirização não é necessariamente uma situação provisória; quando bem desenhada, vira parte do motor de crescimento da marca.
Sobre a autora
Carol Godoy é Gerente de Marketing B2B na Liotécnica. Nutricionista, Técnica em alimentos e MBA em Marketing, atua há mais de 20 anos unindo saúde, comunicação e inovação na indústria de alimentos.

